1. Armário de Corno 1/3


    Encontro: 21/12/2017, Categorias: Traição / Corno, Autor: faunorj, Fonte: ContoErotico

    A livraria fervilhava com o burburinho típico das noites de lançamento. O homem de cerca de trinta e cinco anos, em calças e camisa sociais, conversava numa das extremidades do mezanino em forma de L, sentado a uma mesinha redonda cercada de convidados agrupados em rodas de bate-papo, entretidos com os comes e bebes ou de olho na cadeira em frente, um ou mais exemplares do livro na mão, à espera de uma oportunidade de trocar algumas palavras e pedir uma dedicatória. Eu já tinha o meu, comprado pelo seu primo, e vigiava de esguelha o senta-levanta, sem coragem de me aproximar. Só na quarta ou quinta brecha foi que arrumei a postura e me preparei psicologicamente para o confronto. Num canto, contista entusiasta; no outro, autor publicado. Embora ainda fosse praticamente sua estreia literária, um segundo livro de contos, e ele não fosse propriamente um escritor, mas um psicanalista, eu me via numa verdadeira guerra de nervos."Boa tarde. Não, boa noite." Puxei a manga da camisa de malha preta para consultar o relógio de pulso, que apontava quinze para as seis. Como se isso tivesse importância. "Boa tarde.""Boa tarde." Abriu um grande sorriso enquanto eu lhe estendia o livro já na página de rosto. "Dedicado a quem?""Nelson, por favor."De novo o sorriso cheio, sincero, acolhedor. Num segundo escreveu: "Para Nelson. Espero que goste da leitura. Marco"."Tenho certeza disso. A primeira foi muito gratificante." Muito gratificante? Puta que pariu..."Está relendo", seu primo me ...
    socorreu. "Adora Gozos Secretos.""Ahn... Se não se importa que eu pergunte..." quase gaguejei. "Onde você está nesse conto?""Como assim?" Refletiu por um instante. Pensei em reformular a pergunta esdrúxula, mas ele já tinha a resposta: "Em todo lugar.""Mas qual dos personagens tem mais coisas suas?""Não sei. Acho que o jeito mais seguro e fácil de criar personagens verossímeis é colocar em cada um deles um pouco das nossas próprias virtudes e defeitos. Meus diálogos são assim, meio esquizofrênicos." Sorriu.“Interessante. Nunca vi os meus por esse lado.” Retribuí o sorriso, sentindo as faces queimarem. Eu tinha corado?"Ah, um companheiro de ofício!""É só um hobby. Não tenho pretensão de seguir a carreira literária, mas..."Na esperança de uma aproximação maior e talvez algumas aulas particulares com quem entendia do assunto, respirei fundo e repassei mentalmente o convite. Não esperava nenhum milagre, que talento não se empresta; alguns pareceres e dicas, apenas. Marcamos um encontro numa cafeteria para que ele desse uma olhada num dos meus contos, o que fez com concentração máxima e expressão absolutamente inescrutável. Terminada a leitura, levantou os olhos sobre os óculos de armação retangular preta que lhe davam um certo charme intelectual e perguntou casualmente, sem inflexão: "Por que você pontua os diálogos com aspas?""Prefiro assim. Por que, existe uma regra?""Na verdade existe..." disse com voz arrastada, distraído pela aliança na minha mão esquerda. "Mas isso não quer dizer ...
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