1. Vamos Nós Três - Parte 21


    Encontro: 06/06/2017, Categorias: Gays / Homossexual, Gays / Homossexual, Romance, romântico, Casal, Amor, Autor: calango86, Fonte: CasadosContos

    PARTE 21 – Alô? – Duduzito?! – uma voz grave que se esforçava para parecer animada soou do outro lado da linha. Ahhh... Era ele. Odiava essa forma de me chamar. “Duduzito” brotou somente depois que ele saiu de casa, antes era apenas “Dudu”. Um modo de compensar a ausência por meio de uma intimidade artificial, fabricada. Como se trocar meu apelido por outro mais carinhoso fosse o suficiente para apagar meses de descaso. – Tudo bem, pai? Ela não tá aqui. Foi pro negócio de tricô lá. Escutei uma inspiração pesada e prolongada. A expiração que se seguiu foi igualmente audível. Ele suspirava, desapontado. – Calma, eu nem perguntei de sua mãe, filho... Quero saber como você tá, também – ele falou, tentando disfarçar a frustração de não conseguir encontrá-la em casa. – “Também”... Aham... Minha fala reticente ia lançar a conversa na vala dos silêncios constrangedores, eu já sabia. Enquanto fazíamos cabo de guerra para saber qual respiração cederia primeiro e viraria uma frase, olhei para os quatro pinguins de geladeira que havia dado pra minha mãe, réplicas dos personagens de Madagascar. Desviava meu olhar de um para o outro à medida que as lembranças retornavam. Há pouco menos de um ano, meu pai tinha terminado o casamento com a mamãe. A razão? Ele acabou se apaixonando por uma ex-cliente chamada Márcia. Meses atrás, essa mulher havia procurado sua clínica de psicologia para tentar salvar o próprio casamento com um obstetra de renome. Muitas sessões de psicoterapia e lenços de ... papel depois, largou o tratamento porque as louças quebradas em sua casa foram substituídas por jantares harmônicos e aulas de dança na academia local. Vivia um dia-a-dia morno e reconfortante, como um banho em águas termais. O papai havia salvado sua união conjugal, supostamente. Porém, ela lhe confidenciou que as brigas não tinham parado por causa da terapia, e sim porque não ligava mais para o marido. Havia se apaixonado pelo meu pai, seu recém-dispensado psicólogo. Procurando-o, abriu o coração e ganhou, em troca, uma declaração e um beijo na boca. E ela fez isso na nossa casa, aparecendo no dia e horário em que presumivelmente o encontraria só. Mas eles não contavam com uma cagada do destino... Acreditando que estavam sozinhos, não repararam que eu tinha voltado da escola antes da hora, com enxaqueca, e descansava no meu quarto. Eu escutei tudo, vi o abraço efusivo que selava esse encontro de almas e nunca mais o perdoei. Antes de presenciar essa cena, eu já fazia ideia de que o casamento dos meus pais não andava bem das pernas. As refeições estavam cada vez mais rápidas e silenciosas, os talheres cantavam enquanto meu pai aumentava o volume da TV para que ninguém escutasse nada além do telejornal. Quando minha mãe tentava discutir a razão desse distanciamento, meu pai falava que ela estava sendo desarrazoada e projetando suas inseguranças nele. Ela, revidando, gritava não aguentar mais aquele psicologuês todo e as tentativas dele de analisá-la a cada frase. Engraçado... ...
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