1. Como o Diabo Gosta [1/2]


    Encontro: 04/05/2017, Categorias: Virgens, Autor: faunorj, Fonte: ContoErotico

    Era opressivo, sufocante; não tanto pelo mormaço daquela tarde veranil, mas pela incredulidade das dezenas de pares de olhos masculinos que haviam se voltado para vê-la adentrar desacompanhada a biblioteca. Pior que isto, porém, era a dúvida que a impelira até ali.“O Homem Vitruviano?” Esperanza pediu ao bibliotecário num sussurro trêmulo, como se perguntasse pelo Kama Sutra.Murmúrios por toda parte, mas o homem não levou mais de alguns minutos para trazer um pesado livro de arte renascentista. Dispensando o assento que ele sinalizava, ela apoiou a encadernação no antebraço e folheou até o famoso estudo em forma de pentagrama, visão que fez seus olhos se fecharem e sua mão subir à testa.“Posso ajudar, senhorita?” o funcionário perguntou, tirando-lhe suavemente o livro antes que ela o deixasse cair. “Aceitas um copo d‘água?”“Obrigada, mas preciso sair agora mesmo. Tenho quinze minutos para voltar de carona à fazenda de Juarez.”A declaração provocou troca de olhares surpresos e receosos, como se ela houvesse dito ‘castelo de Vlad Tepes’. Não que a propriedade em si tivesse ares de histórias de sangue e morte; construída em pau a pique, a sede de paredes brancas e janelas azuis contava com quatro salas, quase uma dezena de quartos e um banheiro mais que suficiente para seu único morador, órfão de ambos os pais e da irmã mais velha, que sucumbira havia dois anos no parto do primeiro filho. Ele próprio nunca se casara; solteiro convicto aos 34 anos, era conhecido por se ... interessar mais pelas esposas alheias, peculiaridade que levara um grupo de maridos de mulheres seduzidas e/ou molestadas por ele a procurar a Justiça. Não fossem os apelos da Igreja por uma tentativa de exorcismo, àquela altura decerto estaria numa prisão ou manicômio. Coubera à jovem Esperanza a tarefa de registrar o processo, a contragosto da maioria conservadora da cidadezinha, que apenas tolerava a decisão pela falta de pintores ou desenhistas do sexo masculino entre seus habitantes ou das vizinhanças.“Então és a artista? Não imaginava moça tão nova.” O funcionário ergueu as sobrancelhas. “Bem, espero que tenhas a felicidade de registrar um ritual bem-sucedido. Se eu algum dia encontrasse aquele homem por aqui, enfiaria-o na estante de Medicina. Dizem que é um catálogo de doenças venéreas.”Aquilo lhe trouxe um déjà vu. A descrição batia quase ipsis litteris com a que fizera Yolanda, a criada da fazenda, quando da chegada de Esperanza à sede, cerca de meia hora atrás.“Um poço de doenças. Flerta com qualquer mulher, frequenta casas de tolerância e tudo indica que seja dado a orgias, além de blasfemar como o capeta”, a senhora de meia-idade e aparência circunspecta advertiu antes de conduzi-la ao quarto onde ele esperava.“Há quanto tempo isto vem acontecendo?” A jovem a olhou sem seriedade, mal disfarçando sua relutância em aceitar a noção de que naquela casa de ar tão tradicional morava um demônio. Talvez distúrbio mental, talvez desvio de caráter, mas possessão? Quando isto ...
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